Text 4 Apr Guarda pra mais tarde.

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Volto pra você como se nunca tivesse ido ou vindo. Como se nada tivesse acontecido comigo.

É quando eu olho nos seus olhos rasgados que vejo aonde a felicidade da minha vida esta guardada, assim, como num pote de geleia que tem dia marcado pra abrir.

Volto pra você como se fosse possível negar a um pedido tão açucarado - ainda que me engorde - estarei lá pra ver que tamanho eu chego.

E de tantos afins de lutar, sobra nós dois sentados na beira da cama, falando, experimentando, vivendo.

Volto pra você porque é aí quem eu me encontro.

2010.

Text 5 Mar Sem lamentos.

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Não, não me peça para ser normal, não me peça para ser feliz, nem para chorar. Cheguei até aqui fazendo o que sempre fiz, sem planejar, me humilhando, rindo, caindo, sendo eu, de verdade. Não, não me peça pra ser quem não posso ser, não saberia mais viver outras pessoas, não saberia nem ser como fui.

E se fui má, se menti, se errei, eu não me importo mais, nem me envergonho mais. Fiz o que quis, por isso, não me peça para ser quem não sou.

Sim, mudei, e fiz por amor, pelo sentimento que me tomava e me tornava nova. Sim , a culpa é sua, aprendi, ensinei, sonhei e acordei, mas nunca deixarei de ser quem eu gosto, de ser quem odeio, de ser a única coisa que sei fazer. Ser completamente minha. 

Text 19 Apr Quem vai falar de Zezé?

Esparramada na sua chaise longue, ela tomava sua segunda garrafa de um vinho barato, ouvia pela terceira vez a mesma música e os pensamentos continuavam naquele mesmo assunto. Os sonhos de Zezé já se realizaram e sozinha, ela perdeu a alegria. Passou as mãos nos cabelos meios ruivos e sabia que ainda era uma garota bonita.

Trocou de disco, aumentou o volume e dançou, como estivesse sendo observada por todo mundo que queria. Acendeu um cigarro, encheu a taça, apreciou cada conquista, e se amou. Como ela se amava naquela sala, quase vazia, com janelas enormes, mostrando todos os pontos brilhantes da cidade.

Sentia melancolia com a vista do seu apartamento, lembrava das ruas, de tantas pessoas, dos pontos de ônibus… sentia uma saudade.

O celular tocou. Era ele!

- Fazendo o que, sábado em casa? Está com quem?

- Sozinha, tomando um vinho… E você?

- Quase isso. Quis dizer que outro dia comprei aquela geléia de menta, lembra?

As histórias de Zezé sempre levavam 1 ou 2 horas, mas ela não podia contar, não por telefone, nem aquela hora. Se controlou, só ouviu e riu. Os assuntos eram sempre perfeitos, até o momento do: “Preciso desligar.”

O tempo passou, Zezé tinha tudo, menos com quem dividir, com quem brigar, brindar, a quem ninar. Quem contaria suas histórias como uma lenda? A quem ensinaria suas receitas?

O tempo passou…

Já eram quase 4 da manhã e agora, deitada novamente em sua chaise longue, tomou um anti- acido com todos os comprimidos que os 50 anos lhe presenteou, e então, dormiu, um sono de uma Zéze que já não existe mais.

Amanhã ela faz 51.

Text 11 Feb E agora doutor?

Aos 16 decidiram que eu precisava de terapia. Como fosse funcionar.

Logo nas primeiras sessões descobri que iria me dar bem com o doutor Sabiá - Doutor Pedro Paulo Sabiá.

Me acostumei com o passarinho.

- Já sabe o que vai fazer depois da escola Thays?

A verdade era que eu nem sabia o que fazer na escola, imagina depois dela.

Enumerei várias coisas que gostava, mas nenhuma envolvia apego as tradições. Fiquei meio constrangida com a minha lista.

Então ele falou: Você pode fazer tudo isso, pode fazer o que quiser da sua vida…

Eu não sei cantar e se eu quiser ser cantora?

 Aulas de canto.

Eu não sei matemática, se eu quiser ser engenheira?

Aulas particulares.

Eu tenho medo de sangue, se eu quiser ser médica?

Terapia.

Essa foi umas das sessões mais longas que tivemos.

Não passei mais que seis meses com o Doutor Sábia, comportamento que ele já esperava.

Sempre foi complicado terminar o que eu começava.

Embora, tenha sido bom conhecer aquele senhor alto e magro, com olhos mansos que sempre me entendiam.

O que ele não entendeu, é que nunca se diz a um adolescente que ele pode ser tudo. É dizer que pode andar por todas as estradas, mesmo sem saber onde vai dar.

Vai que dá?!

Acho que o Doutor Sabiá foi um dos meus melhores incentivadores de nadas.

Text 17 Jan Os cacos de Judith

Toda vez que Judith se perde, acaba se encontrando naquele peito cabeludo. Não importa quantos pratos foram quebrados, nem todos aqueles discos arranhados pelo chão. Eles sabem que os seus olhos iram se encontrar outra vez.

Ele nem imagina quantas doses foram essa madrugada, mas, enxerga em cada copo o rosto dela, borrado de batom vermelho, quase que laranja.

E passando pelo centro da cidade, em plena terça feira, às 6 da tarde, ela é parada pelo súbito desejo, incontrolável, de comprar qualquer coisa que arranque um sorriso daquele rosto com a barba sempre por fazer.

Qualquer coisa!

Nem sempre tudo é tão claro na casa 27 e por mais que as juras pareçam eternas, no fundo eles sabem que a qualquer momento tudo muda de lugar.

Tudo muda.

Ele finge ter paciência, e como o faz bem. Trinca os dentes e enfrenta uma luta silenciosa que ensurdece quem estar por perto. Porque não sabe disfarçar.

E todos os pensamentos angustiantes de uma incerteza quase certa, teimam em reaparecer justo hoje que ela trouxe aquele livro de receitas, que ele procurava há meses.

Pronto! Estragou o interesse pelo sorriso, pelo jantar, pela noite, por nós dois. Agora vem os pratos quebrados, os discos arranhados… E cadê, onde estão aqueles olhos?

Photo 8 Dec “… Acho que a vida anda passando a mão em mim.
E por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo, na verdade faz tempo,  mas eu escondia porque ele me pegava à força e por trás.
Um dia resolvi encará-lo de frente e disse: Tempo se você tem que me comer que seja com o meu consentimento e me olhando nos olhos
Acho que ganhei o tempo, de lá pra cá ele tem sido bom comigo.
 Dizem que ando até remoçando.”
Mosé V.
O poema que me persegue

“… Acho que a vida anda passando a mão em mim.

E por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo, na verdade faz tempo,  mas eu escondia porque ele me pegava à força e por trás.

Um dia resolvi encará-lo de frente e disse: Tempo se você tem que me comer que seja com o meu consentimento e me olhando nos olhos

Acho que ganhei o tempo, de lá pra cá ele tem sido bom comigo.

 Dizem que ando até remoçando.”

Mosé V.

O poema que me persegue

Text 20 Nov Eu não olho o passarinho

Alguém deve ter dito algum dia que a felicidade é sentimento obrigatório para todos os seres humanos. E acreditamos nisso.

As pessoas têm que andar mostrando os dentes, esfregar alegria na cara de todo mundo, e manifestar o quanto são realizadas e inseridas na sociedade, dando aquela piscadinha ordinária.

Assim é mais bacana!

Se você não demonstra muita satisfação e vários sorrisos, com certeza alguma coisa está errada com a sua conta bancária. Provavelmente é um frustrado, foi demitido e traído pela mulher.

O mundo faz cara feia para pessoas desempregadas e sem carro, que nem precisa ser do ano. Gordas ou com espinha na cara.

O fundo do poço é território proibido por lei federal.

Demonstrar qualquer tipo de fraqueza ou a impossibilidade de gastar R$200 em uma bermuda de marca, é sinal de que não existe uma integração completa entre você e esse novo mundo de MacBooks e iPhones.

Que exagero irmão!

A regra é ser feliz. Mas, como? Em um país onde as diferenças são repugnantes e todas as fotos são felizes.

Contudo, não se trata de questões sobre a burguesia ou proletariado. O tema em análise é: Por quanto tempo mais eu terei que congelar esse sorriso amarelo e bangela só para te agradar?

Photo 29 Sep Passe livre ao amor

Passe livre ao amor

Text 28 Sep Mentindo a idade

Entre velhos livros e discos percebi que toda aquela velha história se repete com mais nitidez perto dos trinta.

E tudo o que eu ouvi minha mãe dizer, se cumpre como promessas amaldiçoadas. Todo aquele papo libertário deu lugar à idéias conservadoras, quase que moralistas.

Eu não sei dizer se sempre foi assim, ou eu descobri só agora. Entretanto, o que importa nesse momento é o receio que a vida me ensina a ter sobre as coisas que saem do óbvio.

Mas, não era isso que me movimentava antes?

Eu aprendi que arriscar agora não é tão interessante, e as aventuras podem ser realizadas de uma forma bem diferente – apaixonar – se pode ser considerado um feito extraordinário que requer uma certa cautela – dependendo dos envolvidos em questão, é melhor consultar antes um médico ou uma taróloga.

Programas caseiros chamam mais minha atenção e me despertam o desejo secreto da velhice tranquila ao lado de um cão fiel ou de um homem leal. A primeira opção me parece menos fantasiosa.

Despretensiosamente, digo que serei uma senhora muito feliz, quando a idade chegar. Pretendo manter os cabelos cinza ou quase brancos e passar as tarde em uma cadeira de balanço, reclamando de tudo que a minha mente me permitir lembrar.

E enquanto esse tempo não chega, curto os meus quase 30, fingindo ter 20, desejando 40 e sem nenhum embasamento nas coisas que afirmo.

Photo 28 Sep A gente se entende

A gente se entende


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